Apagando memórias

Vasculho o céu,
afasto as nuvens,
uso a borracha do esquecimento
sem mais tristezas jogo tudo ao léu,
sigo o caminho apenas das estrelas
que refletem a esperança
no que de novo poderá surgir,
só assim entendo a vida
e a pretendo seguir


N. Marilda
22/01/16




Silêncio

Trilhas cobertas em rendas de luar,
apenas o silêncio preenchendo o vazio,
as estrelas soberanas e companheiras
anunciavam mais uma noite de estio

Passos ali nas pedras ressoavam
deixando marcas leves, com receio,
no coração apenas as saudades acompanhavam
essa ida sem volta, sem anseios

20/01/16

N. Marilda




Canções dos ventos



Foi assim, quase assim e será ...?
Falava com o vento. Houve época em que o recriminava, isto quando o insolente despenteava seus cabelos arrumados de maneira especial. Ele chegava e num sopro só fazia redemoinhos nas madeixas finas que se lançavam numa dança frenética. Ah...como ele era ousado e quantos impropérios deve ter ouvido! Com o tempo foi se acostumando a essa intromissão e até achava-se linda com os penteados que o intrometido fazia nos seus cachos. Passou a observá-lo noite e dia em cantigas ou gemidos que trazia de longe. Jurava que ele sabia contar as suas histórias e fatos lá do vazio por onde havia passado. Acostumou-se a decifrar sua voz e até a esperar sua vinda já considerada amiga. Como brisa chegava trazendo perfumes, cantos suaves e em outras horas era apenas um intruso de voz desafinada, forte e sem noção de onde queria ir. Viajava com ele por sobre montanhas e descia aos vales, onde rasteiro ficava a atropelar as miúdas flores do campo. Um dia recebeu de sua voz a mensagem: um perfume diferente, suave e marcante que parecia dizer - logo estarei com você, acolha-me, sou o amor verdadeiro. De onde viriam esse murmúrios? Onde ele os captou ? Assim, num ápice e surpresa a garota guardou este canto e odores num lugar do coração e ainda espera. Foi de poucos amores e estes não soavam a verdade que sempre mereceu. As vozes de todos os ventos passaram a ser amigas, nelas ainda confia, invadem seu espaço todo varrendo dúvidas e trazendo anseios. Voa junto como borboleta seguindo os rumos que indicam e certamente pousará sem receio onde sua alma reconhecer que valerá a pena.

N.Marilda
14/09/15






Ouça

Não posso tocar teu rosto,
mas com os pensamentos posso tocar tua alma
como harpa afinada,
em suavidade

Ouça a canção
que o vento esparge
carregado de notas e carinhos
que reverberam meu coração






Canção do mar


O luar imponente se propaga
deusa lua, soberana e vingativa
atrasa a maré, dela é dona,
águas quentes, abraços gelados se dão
Oh...tarde em crepuscular momento,
plúmbeas cores sobre a paisagem derramas
enquanto línguas de espumas se ferem nas rochas
na canção eterna que sufoca o mar
Ela traz areias que a praia acolhe,
marca em passos, grãos de vida, falsos monumentos,
que se apagarão efêmeros
como o sorriso nos lábios trêmulos
que dizem o último adeus
juntando beijos aos molhados prantos,
de uma saudade que já aconteceu




22/06/15



Toque de silencio

Ela já havia percebido que os pássaros não mais cantavam como antes, seus chilreados pareciam um tanto desafinados, uma canção não terminada.
Notou que o barulho da chuva, ao qual prestava muita atenção, na tentativa em decifrar sons diferentes, também já não era o mesmo.
Não conseguia mais falar ao vento, pois se ele vinha batendo suas janelas e buscando seus cabelos parecia estar com uma indiferença muito grande e então deixou de o esperar para com ele estabelecer diálogos. A voz dele voz vinda de longe lhe também soava mais fria e estranha. Aos poucos, a natureza ao seu redor calou mais e mais. Nesse silêncio havia um mudo recado: estava perdendo a audição. Um de seus ouvidos cantava em "tinitus", crônico zumbido que incomodava. Durante anos abusou de sons altos e sem proteção, paga então no presente esse castigo e terá que se afastar de barulhos fortes para minimizar o problema. Viu-se tolhida e triste por não poder mais seguir livremente seu caminho. Talvez para muitas pessoas esse problema não seja tão grave, mas em seu caso foi algo ameaçador, sua pretensa carreira artística em jogo. Sem boa sintonia não haverá boa sinfonia.
A canção poderá pausar para sempre, a partitura ficar vazia e o coração quase sem toques. A música sempre foi sua vida.
Pobre menina, não sabe o que fazer, mas continua a envolver-se em todos s acordes possíveis, quer gravar em sua mente cada um para que depois os toque, mesmo desafinados.


17/06/15