Canção do mar


O luar imponente se propaga
deusa lua, soberana e vingativa
atrasa a maré, dela é dona,
águas quentes, abraços gelados se dão
Oh...tarde em crepuscular momento,
plúmbeas cores sobre a paisagem derramas
enquanto línguas de espumas se ferem nas rochas
na canção eterna que sufoca o mar
Ela traz areias que a praia acolhe,
marca em passos, grãos de vida, falsos monumentos,
que se apagarão efêmeros
como o sorriso nos lábios trêmulos
que dizem o último adeus
juntando beijos aos molhados prantos,
de uma saudade que já aconteceu




22/06/15



Toque de silencio

Ela já havia percebido que os pássaros não mais cantavam como antes, seus chilreados pareciam um tanto desafinados, uma canção não terminada.
Notou que o barulho da chuva, ao qual prestava muita atenção, na tentativa em decifrar sons diferentes, também já não era o mesmo.
Não conseguia mais falar ao vento, pois se ele vinha batendo suas janelas e buscando seus cabelos parecia estar com uma indiferença muito grande e então deixou de o esperar para com ele estabelecer diálogos. A voz dele voz vinda de longe lhe também soava mais fria e estranha. Aos poucos, a natureza ao seu redor calou mais e mais. Nesse silêncio havia um mudo recado: estava perdendo a audição. Um de seus ouvidos cantava em "tinitus", crônico zumbido que incomodava. Durante anos abusou de sons altos e sem proteção, paga então no presente esse castigo e terá que se afastar de barulhos fortes para minimizar o problema. Viu-se tolhida e triste por não poder mais seguir livremente seu caminho. Talvez para muitas pessoas esse problema não seja tão grave, mas em seu caso foi algo ameaçador, sua pretensa carreira artística em jogo. Sem boa sintonia não haverá boa sinfonia.
A canção poderá pausar para sempre, a partitura ficar vazia e o coração quase sem toques. A música sempre foi sua vida.
Pobre menina, não sabe o que fazer, mas continua a envolver-se em todos s acordes possíveis, quer gravar em sua mente cada um para que depois os toque, mesmo desafinados.


17/06/15






Cumplicidade

Certamente entre eles existia o que se poderia chamar de cumplicidade de almas. Sempre que falavam, nem havia necessidade de explicar nada, pois sentia-se no ar o estranho magnetismo que os atraía. Porém ele a procurava apenas para dizer de seus problemas e de alguns amores não resolvidos. No começo foi uma amizade embasada nos segredos que ela precisava guardar sobre a história dele, mas mesmo assim era feliz à sua maneira. Nunca havia declarado seu amor, na verdade nem sabia disso ainda, nada esperava dele que amava a uma outra pessoa. Não criou nenhuma expectativa e foi vivendo seus dias apenas carregando a imagem de algo inatingível - seu segredo também e mais que isso, um devaneio - mas com o passar do tempo descobriu-se muito ligada à figura doce e forte daquele homem que a aconchegava sem precisar tocá-la. Apenas palavras os uniam e isso já lhe bastava para saber o quanto ele era importante aos seus dias.. Provavelmente nunca imaginou isso partindo dela, sempre tão amiga e pronta a ajudá-lo com bons conselhos. Apenas a vida poderá mostrar se essas almas foram atraídas por engano ou são gêmeas. A grande cumplicidade que existe foi um indício de que se conheceram em algum lugar ou o destino as quer juntas.

Linhas matinais

A claridade do sol invadiu vales e montanhas aloirando as madeixas do novo dia. As retinas se perderam quase sem volta na linha do horizonte - ah...se a tua face para mim ali se mostrasse - como haveriam mais cores ! Saí do sonho atraída pelo canto dos passarinhos que seguiam em caravana tresloucada, rumo à amplidão. Ali eles conhecem muitos caminhos, cantos emoldurados por belezas que talvez nossos olhos nunca verão. Enquanto penso e os observo, o vento chega sorrindo, calmo e repousa em meus cabelos. Faz deles sempre um despenteado em carinho e agradeço, afinal somos íntimos. Já trocamos muitos segredos , nossas conversas são contínuas e sempre saio mais aliviada em passar a esse amigo algumas preocupações ou mesmo alegrias. Quantos risos tivemos e os meus olhos se enchiam de lágrimas de alegria ! Sempre quando estou meditando me faz companhia, é a melodia de fundo ao processo e tem notas afinadas que fazem bem aos ouvidos. Alguns dirão: como falar com o vento? será que enlouqueceu? Não ! Dizer palavras em alto e bom som a ele faz a alma mais feliz ou mesmo sussurrar baixinho. Nele podemos confiar. É amigo de todas as horas e para sempre enquanto o coração dentro do peito bater.

Neusa Marilda M.


Alma poeta


Onde estão os seus versos?
respondo, a quem perguntou,
eles estão na chuva, no vento,
no amor, no riso e na saudade,

os versos, simples palavras d'alma
estão sempre onde estou


Eles são lirismo e realidades
não resumem
fatos da vida de alguém,
nem falsas promessas e ajudas
que da boca para fora 
em inverdades vem

Os versos que minh'alma canta
são meus e tão somente,
criados em ninho de veludo,
a poeta, um dia irá,
mas ficará ressoando em poemas
simples e eternamente





Brisa de outono



Brisa que sopra em nostalgia
arrefecendo o leve calor
mostra assim em poesia
a imagem de um puro amor

Ah...essa brisa inconstante
que chega e a tudo invade
com perfumes de quem distante
causa arrepios de saudade


                                                                                                                 
                                         N.M.M